11/09/2011

Ressaca de pânico


Sempre entendi a reflexão como a melhor parceira para o silêncio.

Nesses meus tempos de neuer blumenauense, aprendi a lidar com os ruídos germânicos dessa gente que me recebeu tão bem aqui, há dois anos. E, como tudo é Brasil, pude constatar que os sons urbanos são mais ou menos os mesmos, em todo lugar: as sextas têm som de happy-hour; sábados de baladas para os jovens e de talheres e copos para os mais crescidinhos; domingos têm som de gols para todo lado e as segundas não escapam: têm som de preguiça. Os outros dias apenas completam a semana. Menos a quinta-feira, 08 de setembro. Essa trouxe um som que tememos diuturnamente por aqui: o som de pânico.

          Boletim nº 177/11 – Quinta-feira, 08 de setembro - 23:59h
          Nível do Rio Itajaí-Açú: 11,60m
          Previsão do nível: 13,00m às 6 da manhã, do dia 09/09.

A cidade mergulha no caos. Rostos expressam a dor e o medo. Gestos de solidariedade espocam aqui e ali. Notícias desencontradas. As principais vias são interditadas. Famílias fogem.

Um cãozinho é deixado para trás: era a netinha indefesa ou ele.

Blumenau mergulha, a contra gosto, num gigantesco silêncio... Um silêncio que me lembra um 2008 que não vivi, mas que meu amigos me ensinaram a respeitar.

O dia escorrega por entre as lembranças. Quero fazer alguma coisa, mas não sei o que fazer. Os telefonemas do Rio de Janeiro começam a chegar. Tenho que acalmar parentes e amigos distantes com uma calma que já não tenho.

O rio atinge 12,70m e as autoridades alertam que deve chegar a 14,00m. Nossos olhos falam tudo que nossas bocas se negam a pronunciar. A noite é de vigília.

          Boletim nº 178/11 – Sexta-feira, 09 de setembro - 23:59h
          Nível do Rio Itajaí-Açú: 11,70m
          Previsão do nível: 11,49m às 7 da manhã, do dia 10/09.

A fúria dos céus parece domada pelos Deuses e a chuva nos dá uma trégua. O “velho” Itajaí-Açú desiste das janelas de nossas casas e contenta-se com nossos pátios e ruas. Dá-se por satisfeito com os lugares invadidos, o susto pregado e espalha o lixo e a lama que não costumamos deixar soltos por ai.

Agora é noite. Da minha privilegiada varanda agradeço pelas poucas goteiras domésticas que dão ritmo ao meu silêncio, à inevitável reflexão e me assumo um pouco mais blumenauense.

Hoje, os carros não passaram tocando músicas sertanejas ou funks, as pessoas deixaram as calçadas livres, os bares não tiveram happy hour, as baladas de amanhã estão canceladas, as luzes das casas estão apagadas. Hoje é dia de ressaca de pânico.

Blumenau, 09 de setembro de 2011

Anderson Fabiano

Imagem: Helena Chiarello


8 comentários:

✿ chica disse...

Anderson ,que maravilhosa tua crônica dando a noção exata do sentimento por aí.

Que coisa isso!

Ficamos todos preocupados com vocês e com outra amiga dos blogs, a Meri . É tudo o que não gostaríamos de ver, não?

A natureza anda puxando o tapete, mostrando do que é capaz... Cabe ao homem, respeitá-la.

Um abração pra vocês, tudo de bom, fiquem bem,chica

✿ chica disse...

Esqueci de comentar sobre a foto bem tomada da Helena. Pena que essa tenha que ser nessa situação!beijos,chica

mhelena disse...

Anderson, você descreveu muito bem esta situação de aflição e dor, de pânico mesmo. Daqui ficamos assustados, então podemos imaginar o que significa viver isto de perto.
Somos em algumas situações tão frágeis, tão vulneráveis, tão indefesos. Parece-me que o exercício de solidariedade e amor ao próximo precisa ser exercitado pela humanidade com toda a força pois estes desastres ecológicos estão aumentando. Abraço vocês daqui com muita emoção.

Leninha disse...

Anderson amigo,tua crônica me emocionou e trouxe à lembrança a catástrofe que também se abateu sobre
esta cidade onde vivo,há um ano,e,que
também me acolheu.É,realmente,terrível,a sensação de impotência que nos invade
quando a força da natureza atinge a
milhares de pessoas,toma de assalto
lares onde a paz existia poucos minutos atrás...
Bela e tocante a tua crônica,amigo, e a foto da Helena,o complemento perfeito.
Esperemos que a calma retorne
aos lares e que a vida possa voltar
a pulsar como antes.
Que Deus os abençôe e proteja.
Leninha

Su disse...

Moço escritor, que crônica! Imagino a sensação de escrevê-la vivenciando cada palavrinha escrita, cada linha sentida, cada som ouvido, cada gesto vivido e cada dor chorada pelo olhar, alma e coração...

fico muito triste e comovida com as notícias que vejo na mídia, dá vontade de fazer alguma coisa rápido, alguma coisa eficiente, mas me sinto de mãos atadas diante de uma natureza gigante que resolve "chorar" todas as suas mágoas em um lugar só, num momento só...

e eu aqui de Piracicaba preocupada com vocês também, não tem como não ficar... Ver a força da natureza se manifestando dessa forma é pra deixar qualquer um em no mínimo "pânico"...

mas sei que estão bem, já me conforta um pouco e sinto pelos demais, que algo seja feito para ajudá-los... e que voltem os sons, o happy hour, os barulhos de tarelhes, gente falando e até o barulho do "funk", (mais baixinho, se possível, hehehe), mas que volte a vida desse lindo lugar, que os corações dessas pessoas volte a bater em ritmo compassado em harmonia com todos os outros sons, até mesmo o lindo som da natureza, um rio em seu curso normal enfeitando essa linda cidade!

Beijos no coração.
(dos dois lindos!)

Lindo dia! Su.

Roberto Curt Dopheide disse...

Perfeito, amigão... a idéia dos boletins, a descrição com sentimento, o já meio que sentir-se um "neuer" blumenauense... palavras bem colocadas... destoando, é verdade, dos que podem fazer mais e não fazem, dos que não cuidam das margens, da limpeza, das bombas d'água submersas que em plena enchente nos fazem ficar sem água... que nosso querido "Itajaí-Açu" volte ao seu leito, levando sua criativa mensagem para o mar e de lá para os recantos do mundo. Parabéns, beleza pura!

Helena Chiarello disse...

Lendo agora, mais uma vez, tua crônica, é inevitável pensar em como tudo parece acontecer tão rápido, em se falando de Blumenau.

Num dia, as águas ameaçam, assustam, transbordam, alagam e tomam conta dos lugares, do "espaço", da tranquilidade e da segurança das pessoas. No outro, o "velho" rio parece mesmo dar-se por satisfeito, volta "pra casa" e nos deixa, como reflexão, as lições que, a cada vez, "precisa" transbordar para nos ensinar...

Mas se ficamos impressionados com a rapidez e a força das águas, ficamos mais ainda com a persistência e a vontade das pessoas, que já incorporaram o "limpar, organizar, reconstruir e recomeçar" às suas vidas...

Depois de tudo, para descrever o silêncio que se sobrepõe às sirenes, helicópteros, ambulâncias e exclamações assustadas, a expressão seja essa mesmo: "ressaca de pânico".

E é muito bom ouvir, de novo, os "outros sons", infinitamente mais bem-vindos, que fazem essa cidade ainda mais bonita e que a gente sabe, tão gostosa de viver!

Te beijo!

Allan Robert P. J. disse...

Passados alguns dias da tragédia, ainda me assusto. Recomeçar a vida, como formigas que reconstroem o formigueiro após cada chuva, chorar os que se foram, viver e se acostumar com o susto, esperando em dias melhores. A ressaca, às vezes, parece não passar.
Abraço fraterno.